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A triste, porém concreta finitude da vida

“Se todos os meus amigos morrerem, eu desabo! Por isso é que sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.” Vinicius de Moraes, poeta e diplomata. (RJ, 1913-1980).

Um amigo paulista que se foi em 27/03/2014, aos 76 anos, homem culto, sábio e grande escritor, Adauto Suannes, escreveu isso em 21/09/2007:
“Dizem que os chineses (quais deles?) choram quando nasce alguém e se alegram quando alguém morre. Sempre me perguntei por que motivo os cristãos, que dizem acreditar na vida eterna, a qual, é lícito esperar, será muito melhor do que esta, não têm esse mesmo procedimento. Até onde vai a fé do cristão numa vida eterna? Como é possível que nos alegremos sabendo tudo o que passará na vida aquela criança inocente e indefesa que acabou de ser posta no mundo? Tirando a nossa alegria de termos ali um brinquedinho de carne e osso para nos entreter, tudo o que espera essa criança são as dificuldades naturais da vida. Sorte dela que ainda não lê jornal nem vê noticiário de televisão.

Encontrei, há muitíssimos anos, um amigo que eu não via há muito tempo. À pergunta “como vai você?” tentei brincar: “cada dia mais longe do berço e mais perto da sepultura”. Nunca mais nos falamos, pois ele ofendeu-se terrivelmente com o meu “pessimismo”. E o que eu disse era algo absolutamente verdadeiro, válido para mim, para ele e para todos nós. Em compensação, certa ocasião fui à missa de corpo presente de uma senhora, nossa vizinha, que tinha vários filhos, um deles sendo um frei franciscano, que rezou aquela missa. Muitos dos presentes ficaram chocados quando ele disse que estava tendo sua segunda alegria em menos de seis meses. A primeira alegria fora pela celebração, por ele, da missa em ação de graças pelas bodas de ouro de seus pais. A segunda era agora, quando se comemorava a passagem da alma de sua mãe para o local que, certamente, Deus lhe havia reservado. Quantas vezes você já ouviu isso ser dito em uma missa de corpo presente?

O medo da morte é algo absolutamente irracional. Não confundir isso com a quebra do dever de cuidar da própria saúde, que está em qualquer código de ética, coisa que até as plantas não desconhecem. Mais absurdo ainda é quando a pessoa que tem esse medo pânico da morte fuma, bebe e expõe constantemente sua vida a riscos de toda natureza. Qual a lógica?

Repare bem: quase sempre nós perdemos muito do nosso tempo preocupados com o futuro ou lamentando o passado. O presente, com a alegria proporcionada pelo fato de saber que um tumor canceroso agora está fora do meu corpo, pode passar batido. Para não me alongar muito, pois matéria é que não falta, falo de umas cólicas intestinais esquisitas que me vinham aborrecendo há alguns meses. Um exame de colonoscopia revela que há um pólipo bastante alterado ali. Em português claro: câncer.

Por que trago tal assunto para este espaço? Porque ainda há entre nós essa cultura estranha de achar que, mascarando a realidade, a vida fica mais fácil. É claro que não fica. Ouvi de uma senhora que caminhava comigo pelos corredores do hospital a estranha frase: “Nós não merecemos isso!” Pensei em indagar-lhe o que ela entendia por “merecimento”. Onde está o certificado de garantia que nos dá a certeza de que nossa vida durará no mínimo 80 anos e que as doenças só atingirão nossos vizinhos e nossos desafetos? Nossa vida, estou convencido, é aquilo que nós fazemos dela.”

Na época, eu ousei escrever uma carta ao nobre escriba dizendo isso:

Prezado mestre Adauto Suannes, depois de ir ao enterro de alguns amigos (mais ou menos da mesma idade que eu), não comecei a imitar a covardia do Poetinha fazendo uma prece semanal pela saúde dos amigos porque a minha fé é caso pra polícia celestial.
Digo mais: o seu texto sobre a morte é exemplar porque não admitiu aquelas perplexidades tolas que as pessoas comuns cometem ao falar dela. É até besteira dizer isso porque o seu equilíbrio mental, nós, os seus leitores, estamos cansados de testemunhar, embora querer fugir à realidade de que a morte ainda assusta, pelo menos pra mim, é muito arriscado. Sim, porque até os 19 anos, a Bruxa havia tentado me levar por quatro vezes. Foram quatro acidentes graves, sendo o último gravíssimo, quando a minha pressão arterial chegou a zero por zero.

Naquele tempo, jovem e recuperado dos perigos, passei a zombar dela: “Tu não estás com nada, visse, Vaca!” Por vingança ela apareceu exatamente quarenta anos depois querendo levar meu filho caçula de 18 anos. Foi muito doído pra mim! Aí repeti Drummond: “E agora, José? /Você que faz versos/ Que zomba dos outros/ Que ama, protesta/ E agora, José?”

Só me restou fazer um pacto com a distinta Dama da Foice: da próxima vez ela me leva e deixa meu filho em paz! Também passei a chamá-la respeitosamente de “Sua Excelência Representante do Grande Ocaso”, porque, em suma, a morte é igual a um pôr-do-sol com a diferença de que é o último.

Durante a semana próxima passada um leitor trouxe para cá umas sextilhas de um certo Severino (no dizer dele) que na opinião do jurista Saulo Ramos foi o maior repentista de todos os tempos. Concordo, mas devo acrescentar que se tratava de Severino Lourenço da Silva Pinto, porém mais conhecido como Pinto do Monteiro por ser natural de Monteiro/PB. Foi um homem que manteve a lucidez até 28/08/1990 quando morreu aos 94 anos. A sua certidão de óbito reza: “O extinto não deixou filhos nem bens a inventariar, não era eleitor”. Pois bem, aos 90 anos, Pinto recebeu inúmeras homenagens lá na sua terra. Foi quando apareceu uma jornalista metida a sabida e lhe perguntou o seguinte: “É verdade que o senhor é semianalfabeto?” Pinto que sempre foi um homem irreverente, respondeu: “Não, senhora, semianalfabeta é a senhora. Eu sou completamente analfabeto, mas com sabedoria pra fazer versos como estes: Nasci em noventa e seis/ no clima quente do norte/ no dia dois de novembro/ aniversário da Morte/ na data eu fui caipora/ mas pra cantar tive sorte”.

Para você, mestre Suannes, desejo toda longevidade do velho poeta nordestino. Saúde! E não poderia encerrar sem dizer que a morte tem poesia, pois não me desmente o saudoso Augusto dos Anjos:

“Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!”

A morte do cantor e compositor Tito Lívio na madrugada de 23/11/2017, aos 60 anos, de colapso cardíaco, voltou a me incomodar. Lembro o disco “Cinco Sentidos” que Alceu Valença gravou pela Ariola, em 1981, que trazia a música “Arreio de Prata”, de Tito Lívio e Rodolfo Aureliano. Também recordo dos shows em que vi Alceu cantando “êê, arreio de prata, ôô, eu todo prateado”.

Tito vivia por Olinda, bebendo, versejando, carnavalizando, tocando e cantando “arreio de prata”, “canção de amor”, “galope noturno”, “desengano” e até o “desespero dos loucos”. Vejo a imagem dele refletida no espelho cristalino de Alceu. Comparo o Alceu de 1981 na capa do disco “Cinco Sentidos” com aquela flor amarela na boca com o Alceu de hoje que vejo pelo Facebook ou YouTube. Em que pese o talento e a voz ainda serem os mesmos, a carroceria humana demonstra uma profunda diferença porque todo ser humano que envelhece fica decaído e um pouco sem graça, inexoravelmente.

Resumindo tudo: é bom envelhecer embora a velhice seja uma coisa feia do ponto de vista estético e físico, porém ela se torna horrorosa se você não agradecer ao Senhor Deus a vida que leva com os anos que carrega. Eu agradeço e muito porque sempre tive muito mais do que mereço.

Vá em paz, Tito Lívio!

Vida longa, Alceu!
Por Abílio Neto
Umas e Outras 202831540699972713

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